“Dizem que até as ferraduras dos cavalos eram de prata, no auge da cidade de Potosí. De prata eram os altares das igrejas e as asas dos querubins nas procissões: em 1658, para celebração do Corpus Christi, as ruas das cidades foram desempedradas, da matriz até a igreja de Recoletos, e totalmente cobertas com barras de prata.” [1]
Jaz um dia fora a cidade mais rica do mundo, com população ultrapassando, em dez vezes, a cidade de Boston, tempos antes que Nova York fosse reconhecida como tal, lá pelo século XVI, alcançando o contingente londrino.
Numa forma de cone perfeito, nascida entre os cumes das serras, a ingênua montanha responsável, num futuro não muito distante, por trazer a antítese entre a felicidade e desgraça, riqueza e miséria, farturas acompanhadas por mares de sangue, tivera seus brilhantes filamentos descobertos antes que aqueles senhores brancos, muitos com pelos na cara e uma quantidade enorme de tecidos cobrindo por inteiro seus corpos, o desvendassem.
Fora um “rei” inca que soubera sobre as formosuras existentes ao pé da estrondosa elevação causada pelo “simples” encontro entre duas placas tectônicas. Utilizara suas pedras preciosas e sues ricos metais para embelezar O Templo do Sol em Cuzco. Nada saía das redondezas. Os valores agregados aos preciosos não eram para comercializar e sim para adorar os Deuses.
Por sorte o medo o obrigara a abandonar o monte quando soube que esta pertencia aos que vinham de longe, pois a reserva já estava demarcada pelos Deuses. Não tardara muito para que tais indivíduos do ultramar chegassem ao local e transformassem a protuberância no seu mais novo negócio lucrativo.
“Era possível construir uma ponte de prata desde o cume da montanha até a porta do palácio real do outro lado do oceano”, fantasiavam alguns escritores bolivianos da época. Os 185 mil quilos de ouro juntamente com os 16 MILHÕES de quilos de prata, que chegaram à Espanha entre 1503 e 1660, não só estimularam o comércio europeu como o tornaram possível. O total da reserva européia de prata tornara-se vergonhosa perto da quantidade três vezes maior que chegara à Espanha em pouco mais de um século e meio após a descoberta de Potosí.
O sorriso nas feições dos de pele branca se contrastava com os rios de sangue que corriam das peles dos vermelhos. A felicidade e o progresso dos “civilizados” se davam graças à superexploração dos “selvagens”. A diferenciação entre os valores, calcados nas distinções culturais tornara-se possível, paralelamente ao não conhecimento do ferro e da pólvora e regido por estes, o maior genocídio já vivenciado em toda a história humana.
Momentos de glória em tempos remotos se transformam posteriormente nas maiores desgraças de uma população, quando nos referimos às relações “metrópole-colônia”, ao longo da história da América Latina. As regiões que um dia tiveram maiores proximidades nas sucessivas explorações pelos europeus ou, posteriormente pelos americanos, sendo as maiores exportadoras de bens com períodos de auge, por conseguinte, são, nos dias atuais, as que mais apresentam um nível de subdesenvolvimento e miséria. [2] Potosí não foge a regra.
O departamento mais miserável num dos países mais pobres da América Latina e Caribe poderia vangloriar-se por ser um dos maiores fomentadores de riqueza e progresso da História Moderna, e dizer “De nada” aos seus colegas europeus, se isso não fosse completamente inútil.
Usurparam os bens naturais. Largaram a tristeza da pobreza. É “a cidade que mais deu ao mundo e a que menos tem”, bem como comenta uma velha senhora potosina. Os diamantes foram levados pelas espadas dos cavaleiros que retribuíram com as primeiras colocações das regiões mais pobres do planeta.
160 mil habitantes em seu apogeu transformara-se em apenas 8 mil na metade do século XIX, decorrente dos escorrimentos das lágrimas de prata. (população por volta de 200 mil nos dias atuais).
O já um dia o “nervo principal do reino” espanhol suplica por ajuda que, do desenfreado massacre populacional decorrência da inescrupulosa corrida pelo ouro, vive hoje uma outra maneira de assassinato: o cotidiano genocídio da miséria.
[1] GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina.
[2] Estudo feito por André Gunder Frank, Capitalism and underdevelopment in Latin Americ.



Era praticamente consenso entre o grupo de cinco jovens que por ali viajavam juntos que, naquele verdadeiro inferno na terra, onde a criança chora e a mãe não ouve, não ficaríamos por mais três dias. Pacata, pequena, sem infra-estrutura, com ruas de terra e um calor estrondoso, Porto Quijarro tem por volta de quinze mil habitantes, uma cidade extremamente pobre, com a impressão de ter sido completamente abandonada ao longo dos anos pelos governos que pelo país transitaram. Partimos, portanto, em busca de um transporte alternativo. Entre nós havia um descendente de boliviano que já fora para a Bolívia algumas vezes visitar seus parentes e conhecia uma outra maneira de se chegar à Santa Cruz. Por meio de um ônibus. Coincidentemente, este indivíduo era o único que pensava na possibilidade de aguardar o trem até quarta – feira. Por já ter feito e saber como funcionava o esquema do ônibus, havia prometido a si mesmo que nunca mais faria aquele percurso desta maneira. Todavia, o tempo que tínhamos era curto e não podíamos nos dar ao luxo de perder preciosos dias.


responsável por levar duas questões à população local. A principal referia-se a nova Constituição da Bolívia. Paralelamente, o povo boliviano decidiria, também, em quanto deveria limitar a quantidade máxima de terra por pessoa, cinco ou dez mil hectares. Como em todo país dito democrático se prevaleceu a vontade da maioria. E esta maioria, 61%, foi responsável em implementar uma nova Constituição para vigorar na Bolívia, contra 38,5% contrários a ela. Em relação ao tamanho dos latifúndios, uma lavada de 80% optou pela quantidade máxima de cinco mil hectares por indivíduo.