18
mai
09

Um obrigado à civilização européia

“Dizem que até as ferraduras dos cavalos eram de prata, no auge da cidade de Potosí. De prata eram os altares das igrejas e as asas dos querubins nas procissões: em 1658, para celebração do Corpus Christi, as ruas das cidades foram desempedradas, da matriz até a igreja de Recoletos, e totalmente cobertas com barras de prata.” [1]

Jaz um dia fora a cidade mais rica do mundo, com população ultrapassando, em dez vezes, a cidade de Boston, tempos antes que Nova York fosse reconhecida como tal, lá pelo século XVI, alcançando o contingente londrino.33KGJCATCP1SKCAFDJFQ8CA210YX0CA2JB3CCCAEBRGRJCAXGJVSYCAEY0YQDCAWI9NC5CAW3MU4LCA64Q67TCAGEQUT5CAVL6V14CA6L8SQ5CATWLCS4CA0V3KPPCASH3PC7CA0RPZFSCA1JOJBK

Numa forma de cone perfeito, nascida entre os cumes das serras, a ingênua montanha responsável, num futuro não muito distante, por trazer a antítese entre a felicidade e desgraça, riqueza e miséria, farturas acompanhadas por mares de sangue, tivera seus brilhantes filamentos descobertos antes que aqueles senhores brancos, muitos com pelos na cara e uma quantidade enorme de tecidos cobrindo por inteiro seus corpos, o desvendassem.   

Fora um “rei” inca que soubera sobre as formosuras existentes ao pé da estrondosa elevação causada pelo “simples” encontro entre duas placas tectônicas. Utilizara suas pedras preciosas e sues ricos metais para embelezar O Templo do Sol em Cuzco. Nada saía das redondezas. Os valores agregados aos preciosos não eram para comercializar e sim para adorar os Deuses.

Por sorte o medo o obrigara a abandonar o monte quando soube que esta pertencia aos que vinham de longe, pois a reserva já estava demarcada pelos Deuses. Não tardara muito para que tais indivíduos do ultramar chegassem ao local e transformassem a protuberância no seu mais novo negócio lucrativo.

“Era possível construir uma ponte de prata desde o cume da montanha até a porta do palácio real do outro lado do oceano”, fantasiavam alguns escritores bolivianos da época. Os 185 mil quilos de ouro juntamente com os 16 MILHÕES de quilos de prata, que chegaram à Espanha entre 1503 e 1660, não só estimularam o comércio europeu como o tornaram possível. O total da reserva européia de prata tornara-se vergonhosa perto da quantidade três vezes maior que chegara à Espanha em pouco mais de um século e meio após a descoberta de Potosí.  

O sorriso nas feições dos de pele branca se contrastava com os rios de sangue que corriam das peles dos vermelhos. A felicidade e o progresso dos “civilizados” se davam graças à superexploração dos “selvagens”. A diferenciação entre os valores, calcados nas distinções culturais tornara-se possível, paralelamente ao não conhecimento do ferro e da pólvora e regido por estes, o maior genocídio já vivenciado em toda a história humana.

Momentos de glória em tempos remotos se transformam posteriormente nas maiores desgraças de uma população, quando nos referimos às relações “metrópole-colônia”, ao longo da história da América Latina. As regiões que um dia tiveram maiores proximidades nas sucessivas explorações pelos europeus ou, posteriormente pelos americanos, sendo as maiores exportadoras de bens com períodos de auge, por conseguinte, são, nos dias atuais, as que mais apresentam um nível de subdesenvolvimento e miséria. [2]  Potosí não foge a regra.

O departamento mais miserável num dos países mais pobres da América Latina e Caribe poderia vangloriar-se por ser um dos maiores fomentadores de riqueza e progresso da História Moderna, e dizer “De nada” aos seus colegas europeus, se isso não fosse completamente inútil.

Usurparam os bens naturais. Largaram a tristeza da pobreza. É “a cidade que mais deu ao mundo e a que menos tem”, bem como comenta uma velha senhora potosina. Os diamantes foram levados pelas espadas dos cavaleiros que retribuíram com as primeiras colocações das regiões mais pobres do planeta.

160 mil habitantes em seu apogeu transformara-se em apenas 8 mil na metade do século XIX, decorrente dos escorrimentos das lágrimas de prata. (população por volta de 200 mil nos dias atuais).  

O já um dia o “nervo principal do reino” espanhol suplica por ajuda que, do desenfreado massacre populacional decorrência da inescrupulosa corrida pelo ouro, vive hoje uma outra maneira de assassinato: o cotidiano genocídio da miséria.            

 


[1] GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina.

[2] Estudo feito por André Gunder Frank, Capitalism and underdevelopment in Latin Americ.

17
mai
09

a polêmica do “vergatário venezolano”

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Semana passada foi lançado na venezuela o primeiro telefone celular fabricado no país. Apelidado de “vergatário” pelo presidente Hugo Chávez, o aparelho fez grande sucesso, esgotando−se das lojas em seu primeiro dia de venda. Foram lançados no mercado 5 mil unidades do telefone, que possui peças chinesas e recursos como MP3 player e câmera fotográfica, ao custo de 30 bolívares, o que equivale em dólares a U$13,95 e em reais a R$28.

Essa notícia foi divulgada nos veículos de comunicação brasileiros, mas alguns deles trataram de querer colocar algo a mais no fato, que aparentemente não possui grande relevância, a não ser o fato de custar tão barato e de ser o  primeiro aparelho fabricado na Venezuela, ainda que com tecnologia chinesa. Folha de São Paulo, Estadão e Jornal do Brasil cobriram de forma diferente um fato que talvez não deixasse margem para se fazer juízo de valor. Mas a Folha tratou de dar a sua alfinetada em Hugo Chávez e tratou de associar o apelido do telefone a uma expressão chula que não é usada na Venezuela com esse caráter.  Mesmo dizendo isso em seu texto, fica evidente que a intenção do jornal é criticar o presidente venezuelano e querer de alguma forma chamá−lo de “vergatário” no sentido chulo empregado em outros países da América Latina (vergatário quer dizer grandioso em espanhol, mas em alguns países de língua espanhola, a palavra verga é um nome obsceno para o órgão sexual masculino e vergatário é aquele indivíduo que possui o órgão avantajado). Outra coisa que chama atenção é a Folha querer dizer que Chávez incita o consumismo capitalista a um produto, mas não leva em conta o seu preço e a quantidade produzida inicialmente. Mesmo estando no texto da matéria, parece que não tem importância o baixíssimo preço do aparelho, pois aqui no Brasil, os telefones celulares com MP3 e câmera fotográfica custam tão barato quanto. Ou talvez porque aqui a população não é tão ávida pelas novidades tecnológicas. Parece que os críticos do socialismo ainda acreditam que este sistema econômico prega a igualdade social através do atraso. Isso não deixa de ser uma verdade, que a história recente mostrou em alguns países comunistas. Porém, é comum lermos apenas críticas ao sistema, não a seus líderes. Por que o regime não deu certo na prática? Porque é um sistema calcado no atraso tecnológico, dizem alguns “especialistas”. Se aparece algum presidente socialista e coloca o Estado de novo à frente de setores estratégicos da economia e o setor dá lucro, dizem que aderiu ao capitalismo. Está na hora de alguns setores da nossa imprensa pararem com essa perseguição. Mas fica claro que há um medo muito grande de nossos conglomerados de comunicação perderem seu poder econômico e de influência sobre as massas. E a internet cada vez mais atua como contraponto dessa informação pasteurizada e viciada com que lidamos todos os dias.

13
mai
09

Silvio Santos vem aí, olê olê olá

O país é meu e eu faço do jeito que eu quiser.

O país é meu e eu faço do jeito que eu quiser.

Se aqui no Brasil o Silvio Santos mexe na grade do SBT como se fosse uma página pessoal no Youtube, lá na Venezuela o Youtube é do presidente Hugo Chávez, que pode excluir a qualquer momento a página pessoal de quem quer que seja.

Mais uma vez Chávez ameaçou tirar do ar um canal de TV oposicionista, a Globovisión. A Conatel, Comisión Nacional de Telecomuniciones, órgão que regula o setor e é controlado pelo Estado, abriu um procedimento contra o canal odiado por Chávez contra a cobertura realizada por eles do terremoto que acometeu Caracas no último dia 4. Um comunicado da Conatel dizia que a cobertura da Globovisíon “poderia ter gerado alarme, temor, confsão ou pânico entre a população”. A emissora rebate e diz que seu único “erro” foi ter noticiado o terremoto antes da estatal VTV. “É primeira vez que vão punir um canal por divulgar uma informação que buscava tranquilizar os venezuelanos”, disse Alberto Frederico Ravell, diretor da Globovisión, chamado por Chávez, em seu programa dominical de TV “Alô, Presidente“, de um “louco com um canhão”.

Não é a primeira vez que Chávez brinca de ameçar ou tirar canais do ar. Há dois anos, o presidente venezuelano retirou a concessão da RCTV, que voltou a funcionar após protestos da população. Desta vez pode ser diferente. A Globovisión não tem novelas, são 24 horas de notícias, e a maioria de sua audiência vem da classe média venezuelana, que tem preguiça de protestos e manifestações públicas. Chávez, por sua vez, sente-se fortalecido pelo referendo de 15 de fevereiro, que aprovou reeleições indefinidas – um soco na cara da democracia, diga-se.

A Globovisión tem até o dia 21 deste mês para apresentar sua defesa contra o procedimento instalado pela Conatel. Provavelmente, o órgão vai suspender a transmissão do canal por 72 horas para ver como a população reage e depois avaliará extinção definitiva da emissora.

Fosse em outro país, eu diria que dificilmente haveria alguma punição mais séria – não por falta de seriedade, mas por não haver motivos suficientes para cassar a concessão de uma emissora. Em se tratando de Venezuela, não duvido de mais nada. Durante o “Alô, Presidente” (veja o vídeo), Chávez disse: “isso [Globovisión] vai acabar ou deixo de me chamar Hugo Chávez Frías”. Precisa mais?

10
mai
09

Fiesp busca retomar o volume de exportações para a Argentina

Paulo Skaf, presidente da Fiesp, e Héctor Méndez, presidente da União Industrial Argentina

Paulo Skaf, presidente da Fiesp, e Héctor Méndez, presidente da União Industrial Argentina. Pela carinha, quem ganhou a queda de braço?

A crise econômica mundial afetou significativamente as relações comerciais entre Brasil e Argentina. A maior interessada em reverter a queda de 45% das exportações brasileiras para o país, registrada em fevereiro, é a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O presidente da entidade, Paulo Skaf, 54 anos, falou à imprensa após encontro com Héctor Méndez, presidente da União Industrial Argentina (UIA), na última quarta-feira, dia 6. Skaf defende a manutenção das boas relações com o vizinho, já que o país é o principal parceiro comercial do Brasil no Cone Sul. “É muito mais fácil a gente vender aqui do que aos países do oriente, tanto por questões culturais e operacionais, quanto pela facilidade no transporte”, afirma. Ao contrário do que ocorre com o Brasil em relação a países desenvolvidos, em que a maioria dos produtos vendidos é matéria-prima e commodity, 90% das exportações brasileiras à Argentina são manufaturadas e, conseqüentemente, possuem maior valor agregado.

Durante a entrevista, acompanhada por Méndez, o presidente da Fiesp endureceu o discurso sobre o tratamento dispensado ao Brasil: “Nós podemos ser absolutamente sinceros e transparentes”, disse. “Neste momento não há nenhuma restrição às importações argentinas no Brasil, mas há restrições às importações brasileiras na Argentina”. Skaf propôs que se estabeleçam cotas máximas para importações brasileiras e que os entraves sejam derrubados quando se tratar de produtos que a indústria argentina produz em quantidade insuficiente para abastecer todo o seu mercado consumidor. Para o empresário, o problema é que as licenças para entrada dos produtos brasileiros na Argentina “não saem nunca” e é necessário estabelecer regras claras, para evitar prejuízos para os dois países. O industrial presidente da UIA disse que é legítimo que cada nação se defenda como pode da crise, mas amenizou o discurso diante dos brasileiros: “Nós queremos encontrar soluções coletivas e acordos como sócios”, disse.

Para quem estava lá, a impressão que ficou é que Paulo Skaf deu uma bela “dura” em Héctor Méndez do tipo. Como se sabe, a Argentina beneficia-se com as exportações brasileiras. Ao ouvir um repórter dizer que “há um claro conhecimento de que o Brasil está ajudando a Argentina”, Skaf esquivou-se de responder algo objetivo, mas a vaidade deu-lhe um ar de: “é por isso que estão dançando conforme a minha música”. Méndez comprometeu-se a pressionar o governo argentino a ceder às indústrias brasileiras.

04
mai
09

Um percurso nem tão clássico assim.

A viagem começara, realmente, ao chegarmos em Porto Quijarro, na Bolívia, cidade divisa com Corumbá, Mato Grosso do Sul. Ali teríamos que pegar, rumo a Santa Cruz de La Sierra, o famoso e velho “Trem da Morte” – leva este nome por, em tempos remotos ainda quando cruzava o Brasil com destino à São Paulo, muitos descarrilamentos aconteciam ao longo de seu percurso. Outro motivo do nome é o fato de ter sido o meio de transporte responsável por levar cadáveres de indivíduos que morriam de febre-amarela. Obviamente, nos dias atuais, tal perigo está extinto, tendo desde classes cujas poltronas são como bancos de praça, até leitos com ar condicionado e jantar. No entanto, não havia mais passagem para o trem naquele domingo e só as conseguiríamos para a próxima quarta – feira.

Porto Quijarro   Era praticamente consenso entre o grupo de cinco jovens que por ali viajavam juntos que, naquele verdadeiro inferno na terra, onde a criança chora e a mãe não ouve, não ficaríamos por mais três dias. Pacata, pequena, sem infra-estrutura, com ruas de terra e um calor estrondoso, Porto Quijarro tem por volta de quinze mil habitantes, uma cidade extremamente pobre, com a impressão de ter sido completamente abandonada ao longo dos anos pelos governos que pelo país transitaram. Partimos, portanto, em busca de um transporte alternativo. Entre nós havia um descendente de boliviano que já fora para a Bolívia algumas vezes visitar seus parentes e conhecia uma outra maneira de se chegar à Santa Cruz. Por meio de um ônibus. Coincidentemente, este indivíduo era o único que pensava na possibilidade de aguardar o trem até quarta – feira. Por já ter feito e saber como funcionava o esquema do ônibus, havia prometido a si mesmo que nunca mais faria aquele percurso desta maneira. Todavia, o tempo que tínhamos era curto e não podíamos nos dar ao luxo de perder preciosos dias.O Tenebroso

Duas, três quadras abaixo da estação de trem ficava a “rodoviária”, uma espécie de um galpão quadrangular enorme. Após negociarmos os preços das passagens, pois estava mais caro que uma boa classe de trem, conseguindo baixar 50 pesos de 150 iniciais – a famosa lei da economia, oferta e procura, tampouco deixava de reinar naquele local, pois em média, a passagem do ônibus custa em torno de 60 bolivianos – fomos conhecer nosso futuro meio de transporte. Azul, com desenhos laterais, bagageiro no teto e um retrovisor remendado com fita crepe, remetia a um ônibus hippie dos anos 70.

Seguindo o conselho do já experiente em tal percurso, não nos restava mais nada a fazer senão nos embriagarmos em cerveja para tentar tornar a viagem um pouco mais tranqüila. Na venda que comercializava a cerveja mais barata, problema este que enfrentaríamos ao longo da viagem, por ser uma bebida relativamente cara na Bolívia, nos aconchegamos na sarjeta com um grupo de outros três brasileiros que conhecemos na vinda e começamos a tomar o que seria nossa salvação por pelo menos algumas horas. Bêbados locais, com o tempo, aproximavam-se de nós, como qualquer outro lugar.

Resguardado na inconsciência de cada um, passava-se o desejo de estagnar o tempo, a fim de adiar o problema que sabíamos estar por vir. Mas infelizmente, a fase tecnológica em que nossa sociedade se encontra ainda não nos permite tal feito. Partimos para o irremediável, porém, necessário. Fomos todos em direção ao ônibus, felizes e sorridentes, inclusive nossos novos amigos já alcoolizados de antemão.

Após colocarmos nossas malas no bagageiro, tirar fotografias com nossos novos companheiros e nos despedirmos, fomos surpreendidos ao saber que nosso ônibus não ligava. O santo álcool já estava sendo útil antes mesmo de iniciar a viagem. Algo que em outros momentos poderia ter sido tenebroso, desagradável, aborrecedor, foi, para nós, no entanto, uma tarefa bem divertida e prazerosa para a ocasião, confesso. Demos ré, manobramos, colocamos em linha reta com a estrada e o empurramos por mais alguns minutos. A todo o momento nos remetia uma felicidade sem explicação, talvez por toda situação em que nos encontrávamos e, acima de tudo, por sentirmos que estava começando uma viagem única e inesquecível.100_16711

       Uma pena que felicidade de bêbado dure pouco. Passado algumas horas e depois de ter dado uma dormidinha, o efeito da droga já terminara. Do céu ao inferno em apenas algumas horas e uns quilômetros dentro de um veículo em que, o espaço para suas pernas entre a sua cadeira e a da frente é mínimo para uma pessoa de quase um metro e oitenta. Esmagadoramente, o corpo une-se ao do parceiro ao lado formando-se um só. A poltrona é estofada por uma singela espessura de espuma, insuficiente para conter os dolorosos gritos dos glúteos após algumas horas. Não sei qual era o melhor local. Se era como estávamos, ou como algumas outras pessoas que passaram a maior parte da viagem em pé ou deitados no chão. Tudo isso refrigerado pelo refrescante ar empoeirado que entrava pela janela a uma temperatura de uns quase 30°C. Mas tudo bem. Apenas dezessete horas nos separam de nosso destino por uma estrada que 2/3 são de terra.

Uma longa e plana vegetação pantanosa nos acompanhava ao longo da estrada. Na densa escuridão madrugada adentro, apenas a luz da lua, das estrelas e o rastro do farol que o ônibus iluminava nos permitia enxergar, um pouco, por onde passávamos. No meio da estrada, o nada. Apenas um solitário veículo movido a diesel com uns quarenta e poucos homo sapiens dentro destoavam a paz do silêncio por onde se passava. Uma sensação de insignificância, remediando num atonicismo no meio daquela monstruosidade invisível, paradoxalmente, era responsável por fomentar momentos de paz e reflexões internas. Estava em jogo um conflito contraditório entre a “solidão” prazerosa e a amargura do desconforto.

Paramos, de repente, em uma pequena casa construída no meio da estrada. Este seria o lugar no qual nos alimentaríamos e a única parada programada ao longo da viagem. Arroz, carne, batata frita e um pouco de salada era o menu do local. Para servir tais alimentos, utiliza-se a mão. Todavia, a simplicidade do ambiente não tirava o mérito da gostosa comida fornecida.  Após a refeição, ainda com um tempo livre antes da partida do ônibus – este permaneceu ligado durante toda parada para não correr o risco de não funcionar mais – fomos para o meio da estrada para fazer o desjejum. Sem luz artificial alguma, o céu, encoberto pelas estrelas, encontrava-se em disputa com estas com a finalidade de arranjar algum espaço para se poder fazer ver.

Estrada

Estrada

Quando alguém, por exemplo, é fortemente levado a situações duradouras de sofrimento, além do que se está acostumado e quando tais estímulos cessam de repente, não há o sentimento de uma mera sensação apática. A suspensão da dor é vivenciada por um prazer autêntico. É como diz um verbete: “Hoje farei feliz meu cão: primeiro o espancarei, depois pararei de bater.” Creio que tal idéia é o suficiente para expressar a sensação ao sairmos daquela máquina, tanto xingada por nós naquelas últimas horas, ao chegarmos em Santa Cruz pela manhã. 

A poeira, ao longo do percurso, permitiu com que todas as malas, no final, perdessem suas singularidades tornando-se homogêneas. Mal era possível reconhecer cada uma daquelas mochilas amarronzadas. Os cabelos, assim como as roupas, estavam petrificados. Travadas num ângulo de 90° durante horas, nossas pernas não mais nos obedeciam.

Após o eterno suplício de dezoito horas – vivenciado apenas uma vez, há quem faça isso direto – duas coisas serviram de lição: primeiro que o álcool, muitas vezes, torna-se fundamental. Segundo que, NUNCA MAIS farei tal percurso desta maneira até uma próxima oportunidade.

14
abr
09

O Império Ianquiano do Sul

Tomemos cuidado, caros amigos brasileiros. Fujamos da hipocrisia que nos circunda ultimamente e paremos para refletir como estamos exercendo, atualmente, nosso papel no meio do contexto político latino americana.

 

Como já mencionado brevemente nesse blog muitas são as mudanças, ainda em percurso, ocorridas na América Latina neste começo do século XXI. Vislumbram-se políticas que procuram alternativas ao modelo neoliberal por meio de princípios que favoreçam as soberanias dos povos, com a economia não calcada exclusivamente no capital, mas com pensamentos que prevaleçam o princípio da solidariedade, assim como a criação da Alba (Alternativa para os povos de nossa América) – bloco de integração regional criado em 2004 pelos governos de Cuba e Venezuela ao qual se incorporaram Bolívia, Nicarágua, Dominicana e Honduras, em contraposição aos tratados de livre-comércio. Buscam um comércio justo; do Banco do Sul – instituição financeira que contrapõe ao Banco Mundial e ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, objetivando o desenvolvimento regional; da Escola Latino Americana de Medicina (Elam) – criada por Cuba, em 1999, com a finalidade de formar médicos comunitários (por meio de bolsas de estudos) a estudantes pobres de países latino americanos, africanos e dos EUA que, depois de formados, voltam aos seus países de origem para exercer a profissão (Chávez criou uma unidade na Venezuela).

 

Nós, os detentores da maior economia da região, que tanto defendemos, por exemplo, nossos recursos naturais ameaçado, vez ou outra pelo grande Império norte americano, nos comportamos, muitas vezes, iguais aos nossos tão criticados, amigos ianques. Peguemos, no caso, uma questão em pauta referente ao Tratado de Itaipu.

 

O novo governo paraguaio, representado na figura de Fernando Lugo, também se consta na lista dos países em transformação na região, com políticas indo de encontro aos modelos até então vigentes no continente. Seu desafio no período em que governará o país será garantir ao povo paraguaio soberania alimentar e energética, por meio de reformas políticas e agrárias. No entanto, um dos grandes entraves para a realização de seus projetos é justamente o glorioso, o “abençoado por Deus e bonito por natureza”, mais conhecido como Brasil.

 

Ano: 1973. De um lado Stroessner; do outro o general Médici. Características em comum: ambos ditadores. O primeiro: chefe de Estado do Paraguai. O segundo do Brasil.

 

Acordado, pelos dois presidentes, o Tratado de Itaipu que representava a construção de uma hidrelétrica no rio Paraná que banha os dois países. Estabeleceu-se um acordo no qual cada país entraria, para a realização da obra, com US$ 100 milhões procedentes da empresa brasileira, Eletrobrás, e a paraguaia Ande. É certo que o Brasil financiou maior parte do projeto, o que o faz arrecadar, atualmente, US$ 2 bilhões por ano.

 

Tal valor megalomaníaco deve-se ao fato de o Paraguai, como proveniente no acordo da construção da hidrelétrica, ser obrigado a vender todo excedente de sua cota de 50% de energia apenas ao Brasil, sendo que sua utilização é de meros 9,5%. No entanto, o valor da energia, fixado pelo Brasil, é de pífios US$8/MWh, com um valor de mercado, caso o Paraguai pudesse vender a outros países como a Argentina, de US$35 a US$40/MWh.

 

Os seres mais egoístas e sem grau de reflexão um pouco mais elaborado sairá dizendo que não há injustiça no Tratado de Itaipú, uma vez que fora consolidado por ambos os governos, no qual o próprio governo paraguaio concordou com os termos que vigoram até os dias atuais. De fato, tal argumento é verídico. Contudo, baseia-se no reducionismo em que os verdadeiros cegos se permitem mostrar a cara. É tão válido quanto argumentar, assim como lembra Ricardo Canese, secretário de Relações Internacionais do governo Fernando Lugo, que “é o mesmo que diz um capitalista explorador de proletários para justificar o salário de fome: o trabalhador só coloca sua mão de obra, eu coloco o capital e então tenho direito a mais valia de seu trabalho”.

 

Fechados em tempos ditatoriais, num período em que o diálogo deixara de existir, com liberdades dizimadas em detrimento da régia do fuzil; a única que sobrara fora a liberdade de se calar, andar cabisbaixo, e não olhar para traz. Tempos de completa submissão dada pela força física. Tempos em que os únicos verbos permitidos eram: o calar; o concordar; o submeter-se. Ou seja, tempos em que a democracia deixara de existir e, conseqüentemente, as discussões sobre assuntos de interesses da sociedade paraguaia, como o tratado em questão, não eram mais possíveis.

 

Fora neste palco em que o acordo sobre a usina “promulgou-se”, no qual seus personagens, principalmente os paraguaios, representado por seus presidentes ao longo do tempo repressor (durou até 1989) juntamente com seus colegas barões, tiveram estrondosos enriquecimentos com o acordo que subsidia, até hoje, grande parte do setor industrial brasileiro.

 

Portando, deixemos o caráter imperial extremamente vergonhoso de lado, e reconheçamos o direito de um povo à sua soberania nacional em cima de seus recursos naturais, assim como reconhecemos e queremos que outros também reconheçam os nossos. Em períodos de extrema singularidade na região, com pensamentos que visam a integração regional por meio da solidariedade, tão lutado inclusive pelo governo atual brasileiro, é de extrema importância nossa gratidão aos direitos naturais de uma nação. 

 

 

 

 

          

04
abr
09

Tardio porém necessário

Segue um link que encontrei para explicar−vos uma das razões de ser deste blog (este site me pareceu bastante didático, embora seja bem antigo, anterior à eleição de Evo Morales na Bolívia) É um trabalho legal, que cita o conhecido livro do jornalista uruguaio Eduardo Galeano As veias abertas da América Latina. Divide em categorias as principais lideranças da Região e resume os feitos desses governantes. Volto a dizer que é um artigo bem desatualizado, não serve por exemplo para falarmos da questão da Bolívia. Além disso, faz algumas sugestões que não necessariamente estão em acordo com as visões deste blogueiro. Mas ajuda bastante a entender porque escolhemos o tema América Latina para fazer um blog. Espero comentários.

Um grande abraço!

04
abr
09

O que esperar dessa conversa?

Brasil busca encontro entre Chávez e Obama

Reunião seria na Cúpula das Américas, entre 17 e 19 de abril; venezuelano pediu diálogo, e americano não rechaça ideia
Atenções de Washington se voltam para Cuba; Havana pediu a governos aliados que não abordem distensão no evento para evitar atrito

Lula se autodenomina entusiasta de Obama e enxerga no presidente norte−americano uma figura capaz de realmente mudar as relações internacionais dos EUA com os países emergentes. O grande problema é que pelo lado venezuelano, Hugo Chavez não ajuda e continua pegando pesado em suas críticas, embora acredite que Chavez faça essas provocações aos EUA como forma de se manter popular frente a seus partidários mais radicais, aqueles anti−americanos convictos.

A minha opinião é de que a conversa aconteça de maneira cordial, mas que as relações entre Venezuela e Estados unidos não sofram alterações significativas nos próximos anos. Chavez é teimoso e não ficará quieto. Já Obama não vai conseguir mudar tão cedo a imagem imperialista dos EUA.

Quanto ao assunto principal, Cuba, aí parece que o negócio vai render. Obama admitiu (mesmo que de forma superficial) que poderá retirar o embargo econômico sobre a ilha e líderes de outros países estão na expectativa para que enfim isso aconteça. O Brasil tem papel fundamental nessa questão e Lula terá que segurar os ímpetos de Chavez e Evo Morales, que poderão cobrar explicações de Obama, ao tocarem no assunto. As lideranças cubanas, porém, querem evitar atritos com os EUA, e temem que uma cobrança feita a Obama durante a reunião poderá atrapalhar as relações.

Eu, particularmente acho que Obama deveria ser questionado sobre um prazo para o fim do embargo. Dá para entender os motivos da cautela por parte dos cubanos, mas não se pode perder oportunidades. Cuba tem apoio maciço na América do Sul e os EUA não estão num momento em que não podem ficar impondo regras aos outros países. O Brasil deve fazer essa intermediação para que não ocorram excessos, mas deve dizer a Obama que ele tem que agir rápido, da mesma forma com que tem agido para resolver os problemas econômicos de seu país.

Espero também que nessa reunião não fiquem focados apenas em Cuba e Venezuela e que sejam abordados problemas de todos os países, e que sejam discutidas soluções para serem postas em prática rapidamente. Há muitos problemas causados pela crise econômica e seus efeitos devem ser estancados, para não causar mais desemprego e recessão.

25
mar
09

As regras mudaram!

Expropriações de terras; ocupações de setores considerados estratégicos; (re)estatizações. Mudanças na regência do país. Entre outros, estes são alguns dos fatores que caracterizam o novo modelo econômico/social da Venezuela de Hugo Chávez.

Aliás, a América Latina se transformou. Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Fernando Lugo no Paraguai e, agora, Mauricio Funes em El Salvador. O berço do neoliberalismo – surgido no Chile na década de 70 – foi caracterizado também por ser o primeiro lugar do globo a romper com seus paradigmas. O modelo hegemônico neoliberal na região teve seu potencial saturado. Não fora capaz de cumprir com suas principais promessas. De um lado é certo que as inflações foram controladas. Todavia, as conseqüências para se alcançar tal meta foram drásticas. Barrou o desenvolvimento econômico da região, contribuiu com o grande número de criação de empregos informais, aumentou a concentração de renda (a América Latina é o local onde há a maior desigualdade social do mundo), fez crescer excessivamente o endividamento público, diminuiu o poder dos sindicatos trabalhistas pelas privatizações, sendo ainda grande alvo de investimentos especulativos.

Assim, uma nova ordem alternativa na região está sendo implantada, cada qual a sua maneira.

Chávez está sendo acusado, pela oposição e burguesia de seu país – pode-se dizer também pela grande mídia brasileira, claro – de exercer poderes supranacionais com o objetivo de centralizar o poder um suas mãos. No entanto, para o presidente, nada mais é do que uma “radicalização do processo revolucionário”. E é isto que parte dos que ali vivem e setores da nossa mídia ainda não compreenderam. Ele não foi eleito democraticamente com o discurso de que as mudanças ocorreriam gradualmente. Ao contrário, sempre enfatizou o aspecto REVOLUCIONÁRIO (“mudança violenta da forma de um governo”, como condiz no dicionário Silveira Bueno) de seus pensamentos.

Toda reviravolta atual condiz com uma quebra de paradigma que procura eliminar o modelo regido pelo capital por meio das grandes corporações internacionais e da economia especulativa, assim como comenta a economista e educadora Roberta Traspadini ao dizer que o que tem sido feito é “implementar pouco a pouco uma política internacional de retomada da força do Estado sobre o capital. O que no continente se apresentava como hegemônico e onipotente, agora está podendo ser rompido a partir de uma política mais nacionalista e menos antineoliberal”.

Todavia, há os que acreditam, diferentemente do mandatário venezuelano, que não está ocorrendo um socialismo na Venezuela, pois para o processo revolucionário ocorrer de fato é necessário que este esteja vinculado diretamente com o povo, e não caracterizado essencialmente na figura de Chávez, como está acontecendo.

Contudo, transformações estão ocorrendo no continente. E é bom que, aos que compartilham com os inescrupulosos pensamentos de que o maestro que rege a orquestra mundial tem que ser o capital e não os próprios seres humanos, se acostumem, pois, para muitos, estes tempos serão de “heróis ou mártires”.

09
mar
09

Um dia para entrar na história

Ainda quando o crepúsculo reinava no céu de La Paz, horas antes da aparição de Evo Morales na sacada do Palácio do Governo, a Praça Murillo – onde este se encontra – estava predominantemente composta por dois seres distintos. Turistas argentinos e pombos (a existência maciça destas criaturas deve-se a insistente alimentação feita pela população local). Ansiosos esperando o aparecimento do presidente da Bolívia, gritos e cantos enaltecendo Evo já começam a ser ensaiados pelos argentinos simpatizantes de suas idéias. Tempos depois, quando a escuridão já se sobrepunha aos últimos raios solares, o contraste entre diferentes etnias começava, cada vez mais, a vigorar naquele dia em que, não só para bolivianos, mas também para o resto do mundo, o poder do acontecimento será responsável por se eternizar na história.

 

Neste dia, 25 de janeiro de 2009, acontecera um referendo005300081 responsável por levar duas questões à população local. A principal referia-se a nova Constituição da Bolívia. Paralelamente, o povo boliviano decidiria, também, em quanto deveria limitar a quantidade máxima de terra por pessoa, cinco ou dez mil hectares. Como em todo país dito democrático se prevaleceu a vontade da maioria. E esta maioria, 61%, foi responsável em implementar uma nova Constituição para vigorar na Bolívia, contra 38,5% contrários a ela. Em relação ao tamanho dos latifúndios, uma lavada de 80% optou pela quantidade máxima de cinco mil hectares por indivíduo.

 

Até aí, tudo parece lindo e maravilhoso, simples de compreender… Não fosse uma oposição derrotada incapaz de aceitar a legitimidade do referendo que fora avaliado por centenas de observadores internacionais da Organização dos Estados Americanos, da União Européia, do Mercosul, entre outras. Os resistentes à nova Constituição, já de antemão, recusa implementá-la nos departamentos dirigido por eles. A infantilização deste grupo é acompanhada por ismos que os precedem. O egoísmo, o charlatanismo, os cegam – ou pelo menos parecem cegá-los -, impossibilitando-os de enxergar a vontade de um povo que, finalmente, está bradando por algo há muito preso em suas cordas vocais: por liberdade. Tentam justificar suas posições utilizando-se do barato argumento de que em seus departamentos – conhecidos como Meia Lua, responsáveis por fazerem oposição ao governo – o voto contrário à Constituição foi vencedor. Realmente. Em  Santa Cruz, em torno de 63% votou não. Em Tarija, 65% da população também não era favorável a nova Constituição. Todavia, constituição é um documento de âmbito nacional, de tal forma que todo território de certo país é submisso a ela. De modo que se a grande maioria (permita-me a redundância) é a seu favor, não há discussão em relação a sua legitimidade. Além do mais, a construção de um país ocorre conjuntamente e não no “cada um por si e Deus contra todos”.

 

Inescrupulosos pensamentos permeiam parte da oposição boliviano e seus seguidores. “Visa para collas¹”, “ passaporte para collas” são pichações comuns de se ver pelas ruas nas paredes do departamento mais rico da Bolívia, Santa Cruz, com a população predominantemente composta por brancos descendentes de europeus. É nítida a perigosa polarização que está ocorrendo num dos países mais pobres da América Latina. Conversando com a população de Santa Cruz, é possível encontrar aqueles que não só acreditam, mas que já estão até preparados para uma possível guerra civil.

 

É a soberania de um povo ameaçada por uma minoria que acredita em uma superioridade, e se utiliza desse argumento, mascaradamente, até certo ponto, para fazer jus à economia mais forte de seu departamento, esquecendo-se de diversos fatores que contribuíram (e contribuem) para tal discrepância, como fatores geográficos: pela existência de gás natural e petróleo, a qualidade superior do solo, fazendo com que tais regiões consigam produzir uma maior quantidade de emprego, riqueza, etc. Fatores políticos responsáveis pelo não investimento proporcionalmente igualitário as necessidades das diferentes regiões do país, entre outros.   

 

Resta-nos esperar o desenrolar desse enredo em que a antítese da beleza e da tristeza caminha paralelamente. De um lado, a beleza de um povo que briga por seu reconhecimento, nunca estando tão próximo desse feito. Do outro, a tristeza de ter a possibilidade de que este continue com algumas poucas mãos em seu pescoço sufocando-o até sabe-se lá quando. No entanto, a vitória está na esperança de uma breve e tranqüila consolidação e solidificação da já gloriosa conquista destes tais collas.      

1. Maneira pela qual os descendentes de índios são chamados.